A instalação que Monica realizou no Paço das Artes, em 1996, foi um marco, uma passagem. Até então suas pinturas surgiam como planos monocromáticos onde fragmentos de um texto vazavam camadas de tinta, indícios do que não se mostrava completamente, mas cuja organizaç ão investia-se de autonomia. Eram manuscritos, antigas caligrafias desenhadas que revalidavam o fazer manual, instaladas em um tempo suspenso. Todo o trabalho era permeado por uma sensação de concreto.

    Com a proposta de apropriação do espaço do Paço, a escolha recaiu na imensa escadaria lateral que leva ao subsolo. Este "campo ampliado"1, visto de frente, reduz os degraus a um plano vertical formado pelos batentes. Campo/tela/papel apto para receber o gesto, agora não mais a letra escrita à mão, mas ainda preservando o labor artesanal: carimbada. O resultado é poesia escrita, a céu aberto, sobre linhas de concreto.


    Diário de textos n.6
    1997, óleo sobre tela
    94 x 184 cm

    Foto: LucilaWroblewski

    Diario de Textos n.6 - 1997

    Muda a forma de expressão, passagem que inaugura uma visualidade outra e mesma, porque a coerência estrutural que norteia a pesquisa continua presente: os limites entre desenho/pintura/gravura, a ambigüidade de figura/fundo, as pinceladas/frestas que provocam múltiplas leituras. A artista não afirma o texto, ela subtrai da palavra a mensagem para revelar apenas o gesto...traços de percurso – registros que no processo vão se transmutando.

    Uma nova ordem transpira nos trabalhos recentes. A letra (forma) torna-se rígida e despersonalizada, impessoal, conferindo ao todo um caráter mecânico. O borrado, o tremido, os riscos e os erros, resíduos do esforço físico de pintar/carimbar/gravar passam despercebidos ante esta implacável configuração. Condensados, ilhados, os fragmentos do texto sugerem tensões, fraturas, isolamentos. A transição publica não mais a tranqüilidade, a intimidade ou a transcendência. Aludem sim, a um enigmático mundo contemporâneo, multifacetado, esfacelado, misterioso, sofisticado e complexo.



    Nancy Betts
    Agosto, 1998













    1. R. KRAUSS. Sculpture in expanded field. The Originality of the Avant-Garde and other Modernist Myths, Cambridge, MIT Press, 1986, p.283.
      Volta!