Ensaio fotográfico - Fernando Lemos
Conhecido em São Paulo como renomado artista gráfico
e poeta, Fernando Lemos, seguindo uma trajetória aparentemente
característica dos jovens artistas neste século,
dedicou-se também à fotografia ao final da década
de 1940. O boletim Páginas Negras traz nesta edição
algumas das imagens fotográficas do artista, expostas em
1992 no Mois de la Photo em Paris e dois anos depois
no Centro de Arte Moderna de Lisboa, ambos eventos sob patrocínio
da Fundação Calouste Gulbenkian.
Nascido em Lisboa no ano de 1926 com o nome de José Fernandes
de Lemos, freqüenta a Escola Nacional de Belas Artes, além
dos estudos em litografia e desenho industrial. Ao final dos anos
40, começa a utilizar o laboratório fotográfico
de Mario Camilo num dos armazéns do Chiado. Lemos então
convive com uma parcela da cultura jovem portuguesa, cujo ponto
de agregação era entre outros a oposição ao regime
ditatorial.
As fotografias do período revelam parte dessa convivência.
Retratos de artistas jovens e personalidades consagradas como
Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes integram essa produção.
As fotos inclusas aqui, como o grupo com Vespeira, Nora Mitrani
e Alexandre O'Neill ou o retrato de José Viana, ilustram
este segmento. Parte do conjunto é formado ainda por estudos
de nus e fotografias de miniaturas (staged photography).
O repertório construtivo dessas imagens está muito
próximo ao utilizado quase na mesma época pelos
participantes da Escola Paulista, fotógrafos agregados
ao Foto Cine Clube Bandeirante, cuja produção foi
estudada por Helouise Costa e Renato Rodrigues no livro A fotografia
moderna no Brasil (1995). Reconhece-se aqui o emprego dos
recursos da sobreposição, da imagem em negativo
ou a intervenção sobre cópia. O abandono
de uma preocupação realista dá-se através
da busca de um linguagem centrada nos recursos do midia. Ao mesmo
tempo, a produção de Fernando Lemos está
fortemente influenciada pela elaboração de uma atmosfera
surrealista, em que a luz é trabalhada com eficiência
na construção de um espaço irreal.
Nos anos quarenta, nós, então surrealistas,
andávamos muito envolvidos com as experiências da
escrita automática (que é o contrário das
máquinas fotográficas de bom comportamento). Esta
permitia coletar sobre o inconsciente os arquétipos-clichês,
incorporando-os a imagens e materiais na área definida
do consciente ou tornado como tal. Após o primeiro impulso
do automatismo, a escrita, como as fotos que estão expostas,
passaram também a ser dirigidas, controladas, programadas.
Também nessa época, a colagem, sistema de emprestar
a certas imagens já estabelecidas nalgum suporte a capacidade
de adesão a outras sobre outros suportes, ocupou muito
do nosso cuidado nas experiências. E, finalmente, a ocultação
(não confundir com ocultismo) onde, por exemplo, a tinta
da china se derramava coerente, desrespeitando as imagens já
impressas, ora saqueando, ora desmistificando, ora resgatando
o universo irônico das semelhanças e/ou das diferenças,
ora na recriatividade de eliminar redundâncias num retrato,
reduzindo-o ao que nele era achado essencial.
(Depoimento 3, do catálogo À sombra da luz,
Lisboa, FCG, 1994)
Em 1953, Lemos migra para o Brasil. Naquele ano o artista expõe
suas imagens, juntamente com Eduardo Anahory, nos museus de arte
moderna de São Paulo e Rio de Janeiro. Em sua chegada ao
Brasil, o contato com o crítico de cinema Paulo Emílio
Salles Gomes leva-o a ser apresentado a estudiosos como Lourival
Gomes Machado e Sérgio Milliet. Após a exposição
no Rio de Janeiro, que contou com apresentação do
escritor Manuel Bandeira, Lemos muda-se para São Paulo.
O texto de Bandeira, que partilhava com o artista de amigos comuns
como Adolfo Casais Monteiro e Jorge de Sena, permite uma visão
de época sobre a fotografia:
Sente-se o pintor nas fotografias de Fernando
Lemos. Mas advirta-se: não se trata de todo de um desses
fotógrafos que se metem a pintores, espécie que
não aprecio, pois o mais a que chegam é a uma falsificação
da fotografia, e até me dão, não sei se exagero,
uma vaga impressão de homossexualismo.
(do catálogo À sombra da luz, Lisboa, FCG,
1994)
.Em São Paulo, então em plena fase de crescimento
industrial, Fernando Lemos irá dedicar-se às artes plásticas
e ao desenho industrial e gráfico, à publicidade.
Sua participação nas Bienais dá uma medida
clara de sua inserção. Em 1957, por exemplo, na
IV Bienal de São Paulo divide o prêmio de Desenho
com Wega. Dois anos depois, responde pela montagem do evento.
Em 1965, na oitava edição participa com uma sala
especial.
Como fotógrafo, atuará apenas em pequenas produções
publicitárias ou trabalhando para amigos como Lourival
Gomes Machado ou a escritora Hilda Hilst. No ano de 1968, participa
com George Torok e Jorge Bodansky de um coletiva na Galeria Astreia.
Com este último, fará sua única experiência
em cinema como diretor de fotografia do longa-metragem Compasso
de espera (1969-1973), dirigido por Antunes Filho.
Portugal, porém, recuperou a produção da
obra fotográfica de Fernando Lemos já em 1977 na
coletiva A fotografia na arte moderna portuguesa, realizada
na cidade do Porto. Cinco anos depois, o artista participa também
da mostra Refotos dos anos 40, em Lisboa.
Por iniciativa do fotógrafo português Jorge Molder,
a Fundação Calouste Gulbenkian responde pelas duas
individuais em 1992, em Paris, com texto de Régis Durand,
durante o Mois de la Photo, e a grande retrospectiva em
1994. As imagens desta última fazem parte do acervo da
fundação, integrando ainda um extenso catálogo,
que reúne textos das diversas exposições
fotográficas do artista desde o início dos anos
50.
Ricardo Mendes
Com a colaboração de Fátima Pessoa