Nos dias 2 a 5 de dezembro reuniram-se, nessa
cidade dos albigenses e de Toulouse-Lautrec, engenheiros, artistas,
economistas, sociólogos e pensadores, para discutirem o
"futuro da cultura". Por mais divergentes que tenham
sido os pontos de vista, havia consenso quanto a um dos aspectos
mais fundamentais do problema: a cultura do futuro será
cultura da imagem. Quanto mais progrediam as discussões,
tanto mais a reflexão se ia concentrando sobre a função
da imagem na sociedade pós-industrial do futuro. Isto
foi captado pela seguinte pergunta: "A imagem do cachorro
morderá no futuro?". Para ilustrar tal pergunta, foram
exibidos hologramas, jogos eletrônicos, fotografias eletrônicas
sintetizáveis pelos receptores, e imagens de objetos "impossíveis"
projetadas por computadores. Pretendo, neste artigo, considerar
apenas um dos parâmetros de tal revolução
das imagens pela qual estamos passando: o da transferencia do
interesse existencial do mundo concreto para a imagem. E restringirei
ainda mais as considerações, ao concentrá-las
sobre fotografias.
Enquanto as fotografias ainda não forem
eletro-magnetizadas, serão elas superfícies imóveis
e mudas, cujo suporte material é papel ou substância
comparável. Nessa sua provisória materialidade as
fotografias se assemelham às imagens tradicionais, cujo
suporte é parede de caverna, de túmulo etrusco,
vidro de janela, ou tela. Mas a fotografia se distingue das imagens
tradicionais por duas características: (1) foi produzida
por aparelho, e (2) é multiplicável. É esta
segunda diferença que interessa para as considerações
aqui propostas. Porque tem conseqüências profundas
para a futura maneira de ser do homem e da sociedade. As fotografias
são superfícies que podem ser transferidas de um
suporte para outro, Como que descoladas, (decalcomanias). A superfície
não assenta firmemente sobre o suporte, como o é
o caso das pinturas, (de parede de caverna ou de óleo sobre
tela). É como se a superfície fotográfica
desprezasse o seu suporte, e estivesse livre de mudar de suporte:
pode passar para jornal, para revista, para cartaz, para lata
de conserva. Pois é o desprezo do suporte material que
é a característica do mundo futuro das imagens.
A superfície da fotografia é
imagem. Isto é: sistema de símbolos bi-dimensionais
que significam cenas. Isto é o "valor" de toda
imagem: que serve de mapa para a orientação no mundo
das cenas. De modelo estético, ético e epistemologico
de tal mundo. Que "informa". Pois nas imagens tradicionais
a informação esta impregnada firmemente no objeto
que a suporta. Por isto as imagens tradicionais têm valor
enquanto objetos. Na fotografia a informação despreza
o seu suporte, e por isto a fotografia tem valor desprezível
enquanto objeto. 0 valor está, nela, concentrado sobre
a informação mesma. 0 aspecto "objetivo"
da fotografia não interessa: o que interessa é seu
aspecto "informativo". Querer possuir fotografia de
uma cena de guerra não tem sentido: sentido tem querer
ver a fotografia para ter informação quanto ao evento.
0 conceito de "propriedade" se esvazia no terreno da
fotografia, e com isto se esvaziam os conceitos de "distribuição
justa" e de "produção" de propriedade.
Sociedade "informática" será sociedade,
na qual tais conceitos terão sido superados.
No entanto, tal decadência do objeto
e emergência da informação enquanto "sede
do valor" não capta, por si só, a revolução
pela qual estamos passando. Retomemos a fotografia da cena de
guerra como exemplo. Como toda imagem, a fotografia "significa"
a cena, isto é: substitui-se simbolicamente por ela. De
modo que quem souber decifrar a fotografia, poderá ver
"através" dela o seu significado. Parece, pois,
que há relação unívoca entre o universo
das fotografias e o universo das cenas do "mundo lá
fora" : o universo das fotografias é "significante",
o mundo das cenas "significado". De fato, no entanto,
a relação passou a ser equívoca: a fotografia
da cena de guerra pode passar a ser o "significado"
do evento fotografado. 0 evento pode ter acontecido, a fim de
ser fotografado. E, mesmo se isto não for o caso, mesmo
se o evento tiver acontecido independentemente do ato fotográfico,
a fotografia pode passar a funcionar enquanto "significado":
para quem vê jornal da manhã, a fotografia da cena
da guerra passa a ser o "significado" da guerra, e o
evento lá fora passa a ser mero pretexto para a fotografia.
Em outros termos: para o receptor da imagem o vetor de significação
se inverteu, e o universo das imagens passa a ser a "realidade".
Sociedade "informática" será
sociedade para a qual os valores e a realidade, o "dever
ser" e o "ser", residirão no universo das
imagens. Sociedade que vivenciará, sentirá, se emocionará,
pensará, sofrerá e agirá em função
dos filmes, da TV, dos vídeos, dos jogos eletrônicos,
e da fotografia. Em tal sociedade, o poder se transferirá
dos "proprietários" de objetos, (matérias-primas,
energias, maquinas), para os detentores e produtores de informação,
para os "programadores". "Imperialismo informático
e pós-industrial" será isto. E o Japão,
essa sociedade carente de energia e matérias-primas, é
desde já exemplo disto.
A decadência do mundo "objetivo"
enquanto sede do valor e do real, e a emergência do mundo
simbólico enquanto centro do interesse existencial, é
observável, desde já, no terreno da fotografia.
É terreno no qual o poder está sendo detido pelos
programadores de aparelhos E trata-se de poder hierarquizado e
des-humanizado. 0 fotografo exerce poder sobre o receptor da sua
mensagem, porque Ihe impõe determinado modelo de vivência,
de valor e de conhecimento. A câmara exerce poder sobre
o fotógrafo, ao estruturar seu gesto de fotografar, e
ao limitar sua ação às possibilidades programadas
no aparelho. A industria fotográfica exerce poder sobre
a câmara, ao programá-la. 0 aparelho industrial,
administrativo, político, econômico e ideológico
exerce poder sobre a indústria fotográfica, ao programá-la.
E todos estes aparelhos gigantescos são, por sua vez, programados para
programarem. Se analisarmos, cautelosamente, não importa
que fotografia individual, poderemos, desde já, verificar
como funcionará cultura de imagens.
E isto nos permite a responder afirmativamente
a pergunta de Albi: "a imagem do cachorro morderá
no futuro?" Morderá, no sentido de: modelará
a ação, e a experiência mais íntima,
do homem futuro.
Vilém Flusser
preto
Fontes
FotoPlus agradece à senhora Edith Flusser e a revista Iris por autorizarem a inclusão deste artigo nesta edição do boletim Páginas Negras.
|