As relações futuras do homem com a máquina
    por Stefania Bril

    Artigo publicado na revista IRIS em janeiro de 1986

    Os ensaios para uma futura filosofia da fotografia foram editados já em 1983 por Andreas Müller-Pohle da European Photography, Göttingen, sob o titulo "Für eine Philosophie der Fotografie". Desde então, os ensaios foram traduzidos e distribuídos pela mesma editora em várias línguas: inglês, italiano, espanhol, norueguês e polonês. Agora, resultado do empenho de Maria Lília Leão, que conseguiu arrastar nesta aventura fotográfica-filosófica a editora Hucitec, assistimos ao lançamento, no Brasil e em Portugal, da "Filosofia da Caixa Preta." Caixa preta que interessa não apenas ao mundo fotográfico, mas a qualquer ser humano que, dentro da realidade governada pelos aparelhos, consegue viver livre. Porque pensante.



    Espírito irrequieto. Criador e provocador. A colocar as definições para colher as antidefiniçöes. A elaborar os conceitos para que sejam transformados em dúvidas, geradoras de inquietudes e certezas.

    Professor Vilém Flusser, autor da "Filosofia da Caixa Preta" (Editora Hucitec), tenta instalar a fotografia dentro de vários conceitos. Como já havia tentado Roland Barthes (mas a fotografia, indisciplinada, não se deixou fechar em compartimentos estanques), como já havia experimentado Susan Sontag, trilhando o caminho dentro do universo fotográfico. Esta coletânea de ensaios para uma futura filosofia da fotografia é um estudo apaixonante. Vilém Flusser introduz um pensar "pós-histórico" onde os valores "históricos" balançam. Onde todos os valores balançam dentro de uma sociedade programada, alienada, onde o pensar se torna supérfluo, onde somos funcionários. Apenas. Não mais sociedade dos objetos ( sociedade onde existiria o proletariado), mas das informações (sociedade dos funcionários).

    Como explicar o mundo fotográfico que, de tão onipresente, se torna invisível? 0 mundo mágico que, de tão real, consegue substituir a realidade e transforma-se num modelo de vida? 0 mundo fotográfico que não explica, porque já sabe, através da emoção (e, se, por acaso ou por imposição, procura as explicações através do texto é só... para confirmar o que já sabe! ). A fotografia "magiciza as palavras" que não conseguem "desmagicizar" as imagens. Alguém pode? Seria esta, entre outras, a tarefa do crítico de fotografia. Vamos conferi-la, depois. Agora, começar pelo começo, seguir, para concordar ou discordar, o raciocínio de Vilém Flusser. Raciocínio lógico, a deixar brechas (propositais?) para a logica ou a alógica do leitor.

    Como o diz Maria Lília Leão - batalhadora incansável, responsável pelo engajamento da editora Hucitec nesta aventura filosófica e fotográfica - "Flusser sempre faz pensar. E pensar dói... Engajando-se para fazer da reflexão alimento de primeira necessidade, gesto corporal do ser, prazer erótico".

    0 ensaio aponta os conceitos-chaves: imagem, aparelho, programa, informação. Acima destes conceitos flutuam as reflexões.

    A imagem técnica (como a fotografia) parece janela, mas imagem é. Parece deixar entrever o mundo, mas o representa apenas: mundo-cena. Carregado de tanta força de "verdade" que se torna real, só quando aparece na fotografia. Inversão de valores.

    A fotografia é um objeto? Uma folha de papel? Mas enquanto objeto ela não tem valor, mas, sim, um valor incalculável enquanto uma superfície possuidora de informações. Ora, hoje o poder não está mais ligado com o possuir dos objetos, mas com o dispor das informações. Fotografia se tornaria então arma poderosa? Poder aos fotógrafos? Mas como, se todos, inclusive os fotógrafos, estamos programados.

    0 fotógrafo, para captar as cenas, utiliza a câmara. Seria ele o "caçador" a empunhar uma nova arma capaz de aprisionar o mundo, ou seria ele aprisionado pelo aparelho de modo a captar o mundo de acordo com a máquina? 0 fotógrafo a existir em função da máquina, ou ela em função do fotógrafo? Como se dá este relacionamento?

    A relação fotógrafo-aparelho é uma relação complicada. Esta certo, como diz Flusser, que o fotógrafo poderá tirar só as "fotografias-fotografáveis". Mas, seria ele apenas um "funcionário" a executar um programa, comparável ao operário da sociedade industrial que, ao manipular a máquina (ou por ela sendo manipulado) produz os produtos sempre iguais'? Como então explicar o fato de que vários fotógrafos, colocados diante da mesma realidade (ou mesma cena), nas mesmas condições de luminosidade, munidos dos mesmos aparelhos, tirarão fotos diferentes? Sempre. Fotógrafo livre, criador ou... como sugeriria Flusser, já emaranhado dentro dos critérios, culturais, estéticos, políticos que já fazem parte do programa, do aparelho.

    A relação fotógrafo-aparelho é apaixonante. Flusser coloca o fotógrato na luta contra o aparelho, na sua tentativa de despistar as suas intenções. Para se tornar livre. Flusser provoca, a gente responde. Não existiria também uma relação quase que amorosa (quem sabe, por isso mesmo, cheia de contradições) entre o fotógrafo e a "sua" máquina? Claro que não, quando se trata de fotomaníacos, alienados, a querer sempre possuir o último modelo que, tecnicamente pensante, tornaria, quem sabe, o fotógrafo não melhor, mas menos pensante. O verdadeiro fotógrafo precisa sentir o toque da câmara, bem encaixada na sua mão; cativá-la e ser cativado por ela. Um verdadeiro prolongamento do braço, mas também do olhar, pensar e... sentir.

    0 universo fotográfico representa o mundo lá fora. Mas o mundo fotográfico existe em preto-e-branco. Existiria a realidade em preto-e-branco? E a cor, seria ela real ou apenas cor-abstrata, cor-confronto? Mundo real, colorido, seria "melhor" em cor Kodak ou cor Fuji? Pergunta surreal sobre o mundo real. Quem sabe, o fascínio que a fotografia em preto-e-branco exerce tanto sobre o fotógrafo quanto sobre o espectador seja resultado da magia do pensamento conceitual aprisionado dentro da ausência da cor. 0 mundo em preto-e-branco conceitual e real. Conciso, sintético, belo, despojado, intenso e... quem sabe, mais fácil de ser decodificada.

    A fotografia, receptáculo e fonte de informações, é distribuída, "derramada" sobre a sociedade por milhares de canais. Aparelhos programados para programar os seus receptores, os leitores, canais distintos-científicos, políticos, artísticos; separados e interpenetráveis. E a fotografia, possuidora de linguagem própria, fica que nem camaleão, muda de significado em função do canal distribuidor. A mesma imagem e vários significados, mutáveis.

    É aqui que Flusser aponta o papel, importantíssimo, do critico de fotografia. Além de desvendar e de mostrar, claramente, o relacionamento entre o aparelho (fotográfico e... os outros) e o fotógrafo, o crítico deve reconhecer e revelar ao leitor a função codificadora do canal distribuidor. Canal que, já, de modo sub-reptício, modelaria o comportamento do fotógrafo. Até que ponto ele vê e capta livremente? Será que no seu subconsciente não se insinuaria uma pitada de auto-censura, já que ele sabe que a sua foto só será distribuída se enquadrada dentro do programa distribuidor? Até que ponto o leitor mergulhará livremente dentro da imagem (mesmo se o fotógrafo "driblar" as intenções do distribuidor) inserida dentro do grafismo informativo-opinativo-que-se-quer-objetivo da primeira página do jornal? Como a leitura da imagem mudaria em função do seu suporte? (papel do jornal, parede de galeria, página do livro). Cabe ao crítico sacudir a poeira, espanar as imagens, rasgar os canais e, sobretudo, torná-los visíveis. Caso o crítico se deixe seduzir pelo canal distribuidor e continue analisando a imagem através do seu significado canalizado, logo programado, ele também, como os outros, decretará a vitória dos aparelhos sobre o fotógrafo e o leitor. Confirmará a vitória de qualquer aparelho sobre a sociedade, alienada.

    Flusser quis provocar uma polêmica e conseguiu, como sempre. (Será que a polêmica estava programada também?) Apresentou o mundo onde tudo se passa "informaticamente, programaticamente, aparelhisticamente, imageticamente", onde o pensar se torna asséptico e... provocou o pensar. Mas ele próprio entreve, dentro do túnel, um caminho para a liberdade. 0 universo fotográfico seria apenas um pretexto para pensar todos os universos dos aparelhos. Aparelhos pensados gigantes, super-humanos, quando, de fato, são apenas pálidos simulacros do pensamento humano.

    "Filosofia da Caixa Preta" é um livro denso; cada palavra tem o seu significado, cada conceito é gerador de conceitos novos. É livro que, não se deixem enganar, não está sendo dirigido apenas aos fotógrafos, mas a todos os seres humanos que, vivendo no mundo dos aparelhos, continuam livres. Porque pensantes.


    Stefania Bril








































    preto
    Fontes





    FotoPlus agradece ao senhor Casemiro Bril e à revista Iris por autorizarem a inclusão deste artigo no boletim Páginas Negras.











    Página criada por Ricardo Mendes
    16.12.1997 - criação
    16.12.1997 - atualização