Espírito irrequieto. Criador e provocador.
A colocar as definições para colher as antidefiniçöes.
A elaborar os conceitos para que sejam transformados em dúvidas,
geradoras de inquietudes e certezas.
Professor Vilém Flusser, autor da "Filosofia
da Caixa Preta" (Editora Hucitec), tenta instalar a fotografia
dentro de vários conceitos. Como já havia tentado
Roland Barthes (mas a fotografia, indisciplinada, não se
deixou fechar em compartimentos estanques), como já havia
experimentado Susan Sontag, trilhando o caminho dentro do universo
fotográfico. Esta coletânea de ensaios para uma futura
filosofia da fotografia é um estudo apaixonante. Vilém
Flusser introduz um pensar "pós-histórico"
onde os valores "históricos" balançam.
Onde todos os valores balançam dentro de uma sociedade
programada, alienada, onde o pensar se torna supérfluo,
onde somos funcionários. Apenas. Não mais sociedade
dos objetos ( sociedade onde existiria o proletariado), mas das
informações (sociedade dos funcionários).
Como explicar o mundo fotográfico que,
de tão onipresente, se torna invisível? 0 mundo
mágico que, de tão real, consegue substituir a realidade
e transforma-se num modelo de vida? 0 mundo fotográfico
que não explica, porque já sabe, através
da emoção (e, se, por acaso ou por imposição,
procura as explicações através do texto é
só... para confirmar o que já sabe! ). A fotografia
"magiciza as palavras" que não conseguem "desmagicizar"
as imagens. Alguém pode? Seria esta, entre outras, a tarefa
do crítico de fotografia. Vamos conferi-la, depois. Agora, começar
pelo começo, seguir, para concordar ou discordar, o raciocínio
de Vilém Flusser. Raciocínio lógico, a deixar
brechas (propositais?) para a logica ou a alógica do leitor.
Como o diz Maria Lília Leão
- batalhadora incansável, responsável pelo engajamento
da editora Hucitec nesta aventura filosófica e fotográfica
- "Flusser sempre faz pensar. E pensar dói... Engajando-se
para fazer da reflexão alimento de primeira necessidade,
gesto corporal do ser, prazer erótico".
0 ensaio aponta os conceitos-chaves: imagem,
aparelho, programa, informação. Acima destes conceitos
flutuam as reflexões.
A imagem técnica (como a fotografia)
parece janela, mas imagem é. Parece deixar entrever o mundo,
mas o representa apenas: mundo-cena. Carregado de tanta força
de "verdade" que se torna real, só quando aparece
na fotografia. Inversão de valores.
A fotografia é um objeto? Uma folha
de papel? Mas enquanto objeto ela não tem valor, mas, sim,
um valor incalculável enquanto uma superfície possuidora
de informações. Ora, hoje o poder não está
mais ligado com o possuir dos objetos, mas com o dispor das informações.
Fotografia se tornaria então arma poderosa? Poder aos fotógrafos?
Mas como, se todos, inclusive os fotógrafos, estamos programados.
0 fotógrafo, para captar as cenas,
utiliza a câmara. Seria ele o "caçador"
a empunhar uma nova arma capaz de aprisionar o mundo, ou seria
ele aprisionado pelo aparelho de modo a captar o mundo de acordo
com a máquina? 0 fotógrafo a existir em função
da máquina, ou ela em função do fotógrafo?
Como se dá este relacionamento?
A relação fotógrafo-aparelho
é uma relação complicada. Esta certo, como
diz Flusser, que o fotógrafo poderá tirar só
as "fotografias-fotografáveis". Mas, seria ele
apenas um "funcionário" a executar um programa,
comparável ao operário da sociedade industrial que,
ao manipular a máquina (ou por ela sendo manipulado) produz
os produtos sempre iguais'? Como então explicar o fato
de que vários fotógrafos, colocados diante da mesma
realidade (ou mesma cena), nas mesmas condições
de luminosidade, munidos dos mesmos aparelhos, tirarão
fotos diferentes? Sempre. Fotógrafo livre, criador ou... como
sugeriria Flusser, já emaranhado dentro dos critérios,
culturais, estéticos, políticos que já fazem
parte do programa, do aparelho.
A relação fotógrafo-aparelho
é apaixonante. Flusser coloca o fotógrato na luta
contra o aparelho, na sua tentativa de despistar as suas intenções.
Para se tornar livre. Flusser provoca, a gente responde. Não
existiria também uma relação quase que amorosa
(quem sabe, por isso mesmo, cheia de contradições)
entre o fotógrafo e a "sua" máquina? Claro
que não, quando se trata de fotomaníacos, alienados,
a querer sempre possuir o último modelo que, tecnicamente
pensante, tornaria, quem sabe, o fotógrafo não melhor,
mas menos pensante. O verdadeiro fotógrafo precisa sentir
o toque da câmara, bem encaixada na sua mão; cativá-la
e ser cativado por ela. Um verdadeiro prolongamento do braço,
mas também do olhar, pensar e... sentir.
0 universo fotográfico representa o
mundo lá fora. Mas o mundo fotográfico existe em
preto-e-branco. Existiria a realidade em preto-e-branco? E a cor,
seria ela real ou apenas cor-abstrata, cor-confronto? Mundo real,
colorido, seria "melhor" em cor Kodak ou cor Fuji? Pergunta
surreal sobre o mundo real. Quem sabe, o fascínio que a
fotografia em preto-e-branco exerce tanto sobre o fotógrafo
quanto sobre o espectador seja resultado da magia do pensamento
conceitual aprisionado dentro da ausência da cor. 0 mundo
em preto-e-branco conceitual e real. Conciso, sintético,
belo, despojado, intenso e... quem sabe, mais fácil de
ser decodificada.
A fotografia, receptáculo e fonte de
informações, é distribuída, "derramada"
sobre a sociedade por milhares de canais. Aparelhos programados
para programar os seus receptores, os leitores, canais distintos-científicos,
políticos, artísticos; separados e interpenetráveis.
E a fotografia, possuidora de linguagem própria, fica que
nem camaleão, muda de significado em função
do canal distribuidor. A mesma imagem e vários significados,
mutáveis.
É aqui que Flusser aponta o papel,
importantíssimo, do critico de fotografia. Além
de desvendar e de mostrar, claramente, o relacionamento entre
o aparelho (fotográfico e... os outros) e o fotógrafo,
o crítico deve reconhecer e revelar ao leitor a função
codificadora do canal distribuidor. Canal que, já, de modo
sub-reptício, modelaria o comportamento do fotógrafo.
Até que ponto ele vê e capta livremente? Será
que no seu subconsciente não se insinuaria uma pitada de
auto-censura, já que ele sabe que a sua foto só
será distribuída se enquadrada dentro do programa
distribuidor? Até que ponto o leitor mergulhará
livremente dentro da imagem (mesmo se o fotógrafo "driblar"
as intenções do distribuidor) inserida dentro do
grafismo informativo-opinativo-que-se-quer-objetivo da primeira
página do jornal? Como a leitura da imagem mudaria em função
do seu suporte? (papel do jornal, parede de galeria, página
do livro). Cabe ao crítico sacudir a poeira, espanar as
imagens, rasgar os canais e, sobretudo, torná-los visíveis.
Caso o crítico se deixe seduzir pelo canal distribuidor
e continue analisando a imagem através do seu significado
canalizado, logo programado, ele também, como os outros,
decretará a vitória dos aparelhos sobre o fotógrafo
e o leitor. Confirmará a vitória de qualquer aparelho
sobre a sociedade, alienada.
Flusser quis provocar uma polêmica e
conseguiu, como sempre. (Será que a polêmica estava
programada também?) Apresentou o mundo onde tudo se passa
"informaticamente, programaticamente, aparelhisticamente,
imageticamente", onde o pensar se torna asséptico
e... provocou o pensar. Mas ele próprio entreve, dentro
do túnel, um caminho para a liberdade. 0 universo fotográfico
seria apenas um pretexto para pensar todos os universos dos aparelhos.
Aparelhos pensados gigantes, super-humanos, quando, de fato, são
apenas pálidos simulacros do pensamento humano.
"Filosofia da Caixa Preta" é
um livro denso; cada palavra tem o seu significado, cada conceito
é gerador de conceitos novos. É livro que, não
se deixem enganar, não está sendo dirigido apenas aos fotógrafos,
mas a todos os seres humanos que, vivendo no mundo dos aparelhos,
continuam livres. Porque pensantes.
Stefania Bril
preto
Fontes
| FotoPlus agradece ao senhor Casemiro Bril e à revista Iris por
autorizarem a inclusão deste artigo no boletim Páginas Negras. |