O que faz uma galeria, um espaço expositivo, funcionar? Por que determinadas iniciativas, muitas vezes cercadas de grande
promoção na imprensa ou instalações de porte, simplesmente não conseguem obter - além de estabelecer
um esquema de sustentação financeira equilibrado - resposta do público?
Este ensaio pretende apresentar algumas dessas questões, tendo como pretexto a reinauguração em dezembro
passado da Li Photogallery, que juntamente com a Galeria Fotótopica, integrava o grupo de galerias especializadas em fotografia na
cidade de São Paulo. Ambas haviam interrompido suas atividades no início de 1997, permanecendo como espaços permanentes
dedicados à fotografia iniciativas recentes como a Galeria Imágicas.
Não serão discutidos temas mais amplos como as relações entre arte e fotografia,
nem seus desdobramentos como o mercado de arte e o mercado fotográfico. Tratam-se de assuntos que exigem um debate extensivo sobre o sistema
de arte na sociedade contermporânea. Parte-se aqui do pressuposto que considerando as formas de difusão da cultura fotográfica
é necessário dispor, visando estabelecer uma dinâmica, de um amplo leque de serviços complementares que vão de uma mercado editorial consistente (entendam-se
revistas especializadas para os diversos segmentos, impressas ou virtuais), opções de ensino formal, a centros de difusão de
informação e debate com as mais variadas configurações. No quadro brasileiro, galerias especializadas em fotografia são
assim uma etapa necessária nas últimas décadas, independente da magnitude dos serviços no campo das artes visuais.
Mas então por que alguns espaços funcionam, como conseguem sobreviver? As respostas seriam:
Um bom programa de exposições? Uma inserção na mídia adequada? Condições operacionais?
Com certezas todos esses itens são fundamentais. Mas para observadores e usuários que tenham a pretensão
de avaliar esses espacços, tais respostas devem ser interpretadas considerando a atual situação da produção e
consumo de cultura fotográfica.
No caso paulistano, a "ausência" de espaços especializados e de um mercado de arte receptivo à
fotografia ao final dos anos 60 gerou propostas como o movimento Photogaleria em São Paulo e Rio de Janeiro no início da
década seguinte. Galerias associadas a escolas como a Enfoco surgiram como uma das primeiras opções. Nos anos 70,
a Fotogaleria Fotóptica e logo depois a galeria Álbum propunham-se como iniciativas independentes, enquanto galerias
isoladas e não mais anexos a outras atividades. A primeira ligada à empresa e associada a revista homônima, publicação
que vivia uma de suas melhores fases. A segunda, proposta pelo fotógrafo Zé de Boni, num esquema que procurava estabelecer uma
estratégia de sustentação, não implementada integralmente, através de serviços tradicionais como laboratório,
locação de estúdio, livraria e novas idéias como a proposta, não realizada, de uma biblioteca para sócios.
A falta de espaços - ainda que disponíveis em museus e outras instituições públicas, mas aparentemende
de forma insatisfatória - levou ao surgimento de varias iniciativas de pequena duração. Os anos 80 mostraram um quadro mais recolhido: o
fim da galeria Álbum e uma interrupção da atividades da Fotogaleria Fotóptica que se tornaria a Galeria Fotóptica.
Por outro lado, o mercado fotográfico crescia em diversidade e complexidade nos vários segmentos profissionais. Esse "marasmo"
dos 80 gerou algumas respostas na década seguinte. Entre elas a abertura da Casa da Fotografia Fuji, da Collector’s e logo depois o
surgimento do movimento que gerou o NAFOTO, promotor dos eventos bienais Mês da fotografia iniciados em 1993..
A Li Photogallery tem seus vínculos iniciais numa dessas iniciativas da virada para os anos 90, a propsota de
Lily Sverner e André Boccatto com a editora e galeria Collector’s. E, formalmente, tomava forma, já no endereço da rua da
Mata n.80, em 1992, como Collector’s Photogallery e logo depois Li & Boccatto Photogallery, adotando a atual denominação
no início de 1994.
O primeiro ponto diferencial neste caso é a convivência espacial com o restaurante. Este aspecto - tão
antigo na história da fotografia - parece hoje um fator estranho para uma parte do público de arte, mesmo considerando a maciça
presença de eventos fotográficos em restaurantes e shoppings. Em São Paulo no século XIX não se fugia a esta
prática. Exposições em estabelecimentos comerciais variados, em vitrines, em redações de jornal, foram procedimentos
usuais até a década de 1940 quando por um lado os museus de arte passam a "incorporar" a fotografia timidamente e por outro
fotoclubes como o Fotocineclube Bandeirante criam salões de grande porte inseridos na rotina cultural da cidade.
Esta situação era partilhada pelas artes plásticas até as décadas iniciais do século XX
quando surgem instituições públicas como a Pinacoteca do Estado. Assim, em 1905, quando o fotógrafo Valério Vieira realiza uma grande
mostra de suas obras, o evento chama nossa atenção não só por seguir os padrões de montagem para artes plásticas do período com paredes revestidas de tecidos e diversas obras que ocupam todas as paredes de alto a baixo, como pelo tamanho da montagem. Claro, que o gênero praticado por Valerio, célebre pelos enormes panoramas da cidade de São Paulo, era o da fotopintura, o que não reduz a importância do evento.
O caso da Li Photogallery chama a atenção por ter conseguido conciliar o par espaço expositivo/restaurante
de modo a garantir identidade física a cada um dos serviços. Embora formalmeten ocupasse o hall de entrada do restaurante suas
dimensões (algo entre quatro por doze metros), com acabamento diferenciado, o conjunto funcionava adequadamente. As novas instalações
inauguradas em dezembro reforçaram a separação física entre as atividades, mas mantem a integração visual.
Condições operacionais formam um tópico relevante. Em especial num contexto como São Paulo que
apresenta atualmente grupos de produtores e consumidores em fotografia com perfis mais claros que nas décadas anteriores.
No entanto, lembrando das diversas iniciativas em São Paulo, é fácil compreender que as
condições devem ser medidas pela adequação entre obras expostas e a proposta de relação galeria/público
desejada. Um bom exemplo, nos anos 70, era o Gabinete Fotográfico, gerenciado por Rubens Fernandes na Pinacoteca do Estado.
Um espaço pequeno com cerca de 15 metros quadrados, sem janelas. A seleção de mostras soube tirar proveito das dimensões do
ambiente, que gerava um clima de recolhimento, permitindo valorizar o material exposto e garantindo isolamento do usuário. Intenção
evidenciada no próprio nome do espaço.
Um caso similar, nos anos 80, foi a Parede de Fotografia, no Centro Cultural São Paulo. Proposta e espaço
aproveitados corretamente permitiram que um local "inadequado" obtivesse rendimento. Utilizando uma parede de tijolos aparentes de cerca
de sete metros de comprimento inserida em frente a um vão central de vinte por quarenta metros para o qual abriam dois pisos dedicados a
exposições, tendo no térreo um biblioteca pública, tudo parecia prever um caos. No entanto, o estreitamento do mezanino
naquele ponto acabava gerando um recanto em plena "praça". O programa de exposições soube reservar ao espaço
mostras de pequeno porte de trabalhos de jovens profissionais ou mesmo de nomes renomados, cujos ensaios apresentados, ainda em
desenvolvimento, tinham no local quase um laboratório para mostrar/pensar essas imagens. A proposta reforçava essa
idéia ao favorecer eventos com duração inferior a um mês de modo a marcar o aspecto da brevidade, oferecendo
ensaios para um primeiro contato com o público.
Em suma, repetindo, as condições operacionais devem ser adequadas ao gênero de obras expostas e à
relação com o público (difusão e/ou venda). E essas relações devem considerar as contínuas mutações em um panorama de produção fotográfica crescentemente diversificado.
Isto fica evidente, revendo os anos 80, e a forma como alternativas como feiras
de fotografias, exposições de varais e de rua ressurgiam na tentativa de dar vazão a trabalhos de diversos produtores. Em pleno anos 90,
após quase duas décadas de experências diversas, a iniciativa do Mês da Fotografia deixa claro que o sistema de
difusão pode e deve ser repensado de forma abrangente e inovadora.
Mas o que conta em uma galeria não deveriam ser as imagens e os fotógrafos? Embora elementos centrais, todo
espaço expositivo que não tenha sido pensado como fator ativo no sistema de difusão e consumo de imagens não teve
continuidade. Excetuando as menções anteriroes, as galerias que não avaliaram seu papel curatorial, adotando linhas de
atuação quanto a público consumidor (seja para difusão ou venda) e fotógrafos não definem, antes
mesmo de um perfil de
sustentação econômica, uma finalidade que possa ser reconhecida socialmente.
Propostas com a Álbum deveriam ser reavalidas com atenção para eventual aproveitamento, com
ajustes necessários, em outros contextos. Espaços associados a empresas fotográficas ou instituições públicas
mantêm-se a parte desse debate porque sua sustentação pode ser viabilizada ainda que funcionalmente não apresentem programas
claros.
A opção de Clifford Li em direcionar seus eventos para o campo da publicidade e moda encontrou sintonia com o
público frequentador dos restaurantes anexos, não só consumidores de alto padrão econômico, com bom nível de
informação cultural, mas muitas vezes eles próprios ligados a estes setores de produção. Segmentação
que infelizmente não foi tentada no campo editorial brasileiro de revistas especializadas que ainda permanece restrito a produtos para grande
público.
Produtos adiconais oferecidos pelas montagens da Li Photogallery como catálogos
e até mesmo em alguns momentos videos sobre os eventos (que não conseguiram encontrar no entanto um perfil
adequado) são aspectos fundamentais para implementar a difusão dos eventos após a inauguração e gerar registros
documentais.
Este ensaio é uma celebração à retomada das atividades da Li Photogallery e uma
oportunidade para revermos alguns pontos sobre a questão do perfil funcional dos diversos espaços expositivos possíveis.
Campo que mereceria maior espaço para debate após o surgimento das galerias virtuais na internet.
No entanto, a Li Photogallery é apenas uma opção, uma solução possível,
que integra e deve conviver com um sistema amplo e em permanente renovação de difusão de cultura fotográfica que reflita o atual
porte da produção nacional. Novas iniciativas, novos perfis funcionais e novos serviços devem ser apresentados e vividos.
Ricardo Mendes