A economia do pensamento
    por
    André Gunthert


    Artigo publicado na revista francesa
    La Recherche Photographique, n.20, de 1997.




    Poucas obras, no período recente, terão se beneficiado de um a priori tão favorável como o pequeno volume de Vilém Flusser Pour une philosophie de la Photographie (Filosofia da Caixa Preta, na edição brasileira) (1). Anunciado na última primavera como um dos três pilares teóricos dos Rencontres d'Arles, ao lado de A câmera clara, de Roland Barthes, e Fições, de Jorge Luis Borges, o ensaio suscitou interesse. Contrastando com a ambição do título, a obscuridade do autor, único desconhecido nesta vizinhança lisonjeira, necessariamente chamou a atenção. Ah! este opúsculo pretensioso escrito em idioma obscuro devia se revelar uma triste farsa, elevada à investigação metafísica à custa de muito Dasein.

    Em outras áreas, a caridade teria exigido esquecer este tropeço do pensamento (2). Mas no domínio da fotografia, as obras de reflexão são pouco numerosas e várias razões impõem que não se deixe passar esta em silêncio. Primeiro, seu sucesso na Alemanha onde, publicada desde 1983, já alcança sua sétima edição - lamentamos que o editor francês apresente como datando de 1993 um texto cujas marcas de referência teóricas já são visivelmente velhas. Em seguida, o prestígio intacto do termo "filosofia": em faculdades de história da arte ou nos departamentos de artes plásticas,os estudantes persistem em mencionar com um respeito desproporcionado a medíocre Philosophie de la Photographie de Henri Vanlier (3), e pode-se recear que o livro de Flusser venha alimentar um apetite teórico por vezes muito fácil de saciar. Finalmente, este ensaio apresenta um desfile muito interessante das principais defeitos associados às tentativas de pensar a fotografia - do qual se reencontrará por exemplo indícios em Roland Barthes. Com uma pequena diferença: onde, a qualidade da reflexão da semiologia oculta o sintoma, este se manifesta em Flusser com uma limpidez clínica. É então como se lerá isto: às avessas, como um manual de tudo que é desejável evitar para pensar a fotografia.


    Metafísica ou ignorância?

    O leitor pensará em uma severidade excessiva da crítica? Façamos julgar, e isto desde as primeiras frases do preâmbulo que põe em princípio que teria havido "dois cortes fundamentais na cultura humana desde sua origem. O primeiro, ocorrido na metade do II milênio antes de Cristo, pode ser chamado "invenção da escrita linear"; o segundo, do qual somos testemunha, "invenção das imagens técnicas" (Flusser, p.7). Face à complexidade desencorajadora do mundo moderno, não se fica pouco aliviado ao descobrir a existência de um universo tão simples, onde tudo é apenas luxo, calma e volutuosiedade intelectual. No trecho, pode-se apreciar uma das fontes essenciais deste processo de simplificação. O texto mostra-se particulamente avaro de referências históricas, mas, ainda que traz como este ("por volta da metade do segundo milênio antes de Cristo"), percebe-se após observação que não corresponde a nada de preciso. A imprecisão é uma das condições que autorizam a formular hipóteses grandiloqüentes, apoiadas sobre afirmações tão peremptórias quanto inverificáveis. Obra do acaso? Bem ao contrário. Ante a repetição sistemática do procedimento, pode-se constatar que o inverificável se apresenta como sistema, graças ao álibi de um pensamento livre ("Para preservar o carácter hipotético do ensaio, não se dará uma bibliografia"): evitando com dedicação de prover qualquer referência, qualquer exemplo que seja, o autor procura a construção do raciocínio, livre da complexidade incômoda do progresso histórico.

    O mais penoso é sem dúvida o empréstimo de códigos da filosofia, a mímica da postura intelectual, a manipulação de seus rituais mais superficiais, a começar pelo jargão,: de "scanning " a "Herstellung" passando por " metacódigo", sem esquecer um grande número de "nível ontológico" (isto que significa em Flusser um pouco como "à primeira vista"). O cúmulo é alcançado quando o autor tenta, a propósito da máquina fotográfica, falsificar o método fenomenológico: "A palavra latina apparatus vem do verbo apparare, que significa também "preparar". O latim inclui ainda o verbo præparare, que significa ele também "preparar". Se se deseja compreender em francês a diferença entre os prefixos ad e præ, talvez seja possível traduzir apparare por "preparar" (apprêter). A partir disso, um "aparelho" seria uma coisa considerada pronta e uma "preparação" uma coisa considerada pronta que espera pacientemente alguma coisa. Fotografar, eis o objeto pelo qual o aparelho fotográfico fica à espreita e na frente do qual afia os dentes" (Flusser, p.24) (4). Ou quando a etimologia não serve rigorosamente para nada, além de macaquear Heidegger....

    Não se discutirá aqui a tese de Flusser - isso seria fazer crer que tem uma -, mas apenas o aspecto sintomático da obra. Pois, se o diabo está nos detalhes, o que se abriga aqui encoberto pelo vago, pelo impreciso e pelo inverificável não é outra coisa que a boa e velha metafísica: refúgio do espírito quando falta informação - refúgio onde se abrigavam os filósofos de outrora em questões de física, astronomia ou medicina, à espera que a ciência os dotasse com luzes mais convincentes. Sobre a base de uma cultura geral vacilante, Flusser trai, pelo esquematismo de oposições binárias, o recurso permanente desta forma de raciocínio. A demonstração tão flagrante quanto desajeitada do demônio metafísico nos faz esquecer que o semiólogo sutil que era Roland Barthes, no que concerne à fotografia (embora com uma elegância e uma elevação de espírito que torna a aproximação difícil), não encontrou outro caminho que o da procura da "essência" de uma Fotografia dotada, ao longo de todo La Chambre claire, dotada de uma respeitosa e significativa maiúscula? Não desagrada aos (raros) herdeiros da fenomenologia, reconhecer uma vez por todas que é incomparavelmente mais fácil explorar o vocabulário na busca de uma pretensa "essência" que afrontar e descrever a infinita variedade mental de uma prática.


    Transformar o ensaio?

    O exame das teses de doutorado defendidas tendo como tema a fotografia o provam: ela representa a priori um objeto de grande curiosidade teórica (5). Encruzilhada onde se cruzam as questões da estética e da técnica, da representação e da modernidade, a fotografia constitui com razão um local de destaque para o pensamento contemporâneo. É frente a demanda téorica real que existe neste domínio que deve ser medida a decepção provocada por uma obra como a de Flusser. Não somente por causa de sua própria insuficiência, mas porque ela remete aos defeitos da maior parte das tentativas neste tópico.

    Desde a Pequena História da Fotografia de Walter Benjamin (1931), a reflexão sobre este meio adotou de bom grado a forma do ensaio. Gênero certamente muito prestigiado para o exercício intelectual, onde o estudo ou o tratado chega a restabelecer o equilíbrio para úteis confrontações. Gênero onde as características revelam-se porém perigosas, quando torna-se o modo exclusivo de trabalho teórico. Mais leve que o tratado, o ensaio ocupa na tradição filosófica o papel de arado de novas idéias. Situado como posto de vanguarda da reflexão, espera-se que sua verificação, ou sua negação, sejam demonstradas pelos trabalhos mais demorados e rigorosos. Ele constitui muito precisamente uma etapa, de caráter provisório. É por isso que admite-se que ele possa passar como um aparato pesado de investigação bibliográfica. No caso da fotografia, esta licença se transformou em salvo-conduto autorizando um exercício fundamentalmente diverso.

    "É possível surpreender-se com a ausência de bibliografia. Isto porque este livro não foi escrito a partir de livros, mas de fotos"(6), comenta arriscadamente Henri Valier, visivelmente constrangido, em sua Philosophie de la photographie. Além do burlesco da a rgumentação (não se questiona a finalidade das referências livrescas em Gombrich ou Panofvsky, ainda que eles falem de quadros...), a ausência de indicações bibliográfias ilustra o fato que Vanlier, como Flusser, como Barthes, retomem a cada vez a questão do ponto zero, como se nenhum precedente fosse digno de ser mencionado, como se nenhum precursor tivesse cultivado o domínio. Além das nuances particulares, esta pretensão funda-se geralmente sobre a ignorância. Quando se ergue algumas etapas mais tarde - novamente dissimulado de modo hábil em Benjamin - em método abertamente reivindicado, percerbe-se que o mal está feito. Um último exemplo recente: LŽOeil naïf, de Régis Debray, no qual a apresentação e o próprio título retomam, desenvolvem e exemplificam a argumentação já apresentada por Barthes. Sobre o pretexto de que "a fotografia se subtrai" (Barthes) (7), ou que ela "escapa da âncora do conceito" (Debray) (8), as duas obras, com uma falsa humildade que o valha reinvidicam uma espécie de amadorismo do pensamento, mistura de intuição e biografemas, que seria provavelmente mal aceita em todas outros setores que não esse. (Sem dúvida é necessário fornecer novas ferramentas teóricas para abordar uma atividade que resiste efetivamente aos chavões, mas a melhor solução consiste, para isso, em dispensar toda a bagagem do método?)


    Um dedo de verdade

    Menos árduo de escrever, menos caro para editar, menos longo de ler, o ensaio indica uma certa economia do pensamento, que possui suas vantagens. Isto, infelizmente, transforma-se no caso da fotografia em pensamento "da economia". Incontestavelmente, a primeira explicação para esta escassez teórica deve-se à (relativa) pouca juventude do meio. Comparando-se a uma prática como o teatro, ela também frutífera para o pensamento, mas velha de alguns milênios, percebe-se o benefício do tempo: de Aristóteles a Ubersfeld passando por Aubignac, Diderot ou Schelling, a lista é impressionante, embora a proporção de elaborações teóricas notáveis para um período dado não seja provavelmente superior as da fotografia. A diferença não reside apenas no número, ela reside no próprio período de tempo, que permitiu às principais teses a circulação, absorção, a adoção como regra. Isto é certamente o que falta à reflexão sobre a fotografia - podemos observar, por exemplo, em Barthes, em sua curta bibliografia de A câmera clara, quando esquece de citar A pequena história da fotografia, texto que ele conhecia, contudo, como indica uma entrevista de 1977, mas que visivelmente esqueceu de reler nesta ocasião: esquecimento que tem a ver com o lapso puro e simples, quando se constata a proximidade das conclusões dos dois autores (9).

    Mas esta explicação pro si só teria alcance reduzido se não se percebe o que alimenta esta falta de autoridade. Em 1977, ou seja dois anos antes da redação da célebre Note sur la photographie, Angelo Schwartz, ao entrevistar Roland Barthes, colocou esta questão, na qual a própria brutalidade é interessante: "Existem teorias sobre o cinema. Por que não existe uma teoria da fotografia?" Ao que Barthes respondeu, compreensivelmente, que é a inscrição ficcional do cinema o que lhe dá a dignidade que falta à fotografia (10). Notemos de passagem que não se escreveria hoje em dia que não existe uma teoria da fotografia: naquele ano de 1977 viu o lançamento no outro lado do Atlântico do célebre artigo de Rosalind Krauss Notes sur lŽindex (11), que, a partir de uma releitura de Peirce, deveria introduzir a tese indicial transformada desde então na vulgata da teoria fotográfica (anterior à voga do index, o texto de Flusser não se inscreve nessa vertente, mas representa um evento tardio da moda intelectual precedente, ainda impregnado de linguística, a qual descreve a imagem como código).

    O exemplo do cinema (que partilha estritamente da mesma realidade tecnológica que a fotografia, mas para a qual não invoca a todo momento o rótulo de "impressão fotônica") é suficiente para provar a insuficiência desta tese como abordagem exclusiva do meio. Mas isto que ela testemunha delineia muito bem a mancha cega de toda abordagem teórica da fotografia. Que a imagem argêntica pertence "ontologicamente" ao domínio do registro é incontestável - mas não se toma conhecimento que o registro sonoro provocou debates filosóficos semelhantes. Ser uma impressão era uma coisa, para propor uma problema era necessário ainda que fosse uma imagem. Em outras palavras, a principal dificuldade da reflexão sobre a fotografia repousa sobre o casamento, em teoria impossível, da representação e da verdade, categorias metafísicas que toda a tradição ocidental construiu como opostos (12).

    Ajustar este dissenso pacientemente elaborado não será possível de um hora para outra. Mas justamente: um das conclusões que poderia produzir a leitura de uma obra como a de Flusser é talvez de que seja tempo de abandonar a sedução do ensaio e passar para outra dinâmica, outro regime. Se a obra de Flusser só tiver servido para isto, não terá sido completamente inútil.



    André Gunthert
































    Notas



    1. Vilém Flusser, Pour une philosophie de la photographie, traduzido do alemão por J. Informer. Paris, Circé, 1996.
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    2. Considerando a severidade de minha crítica é de bom tom informar o leitor que Vilém Flusser, nascido em Praga em 1920, faleceu em 1991. Seria bom que fosse me dado crédito de que minhas intenções teriam sido rigorosamente as mesmas se o autor estivesse vivo.
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    3. Henri Vanlier. Philosophie de la photographie. Les Cahiers de la photographie, publicação interrompida, 1983.
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    4. Mencionemos novamente, entre outros fontes de hilariedade, o léxico ao final do volume que faz não menos que determinar noções tão cruciais como a de jogo, "objeto que serve para jogar", ou de fotografia, "imagem produzida e distribuída pelos aparelhos, similares a um folheto".
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    5. Em 85 teses de doutorado defendidas na França desde 1976 relativas à fotografia, 38 tratam de filosofia ou estética, 32 de história.
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    6. Henri Vanlier, op.cit.p.139.
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    7. Roland Barthes, La chambre claire, Note sur la photographie, Paris, Cahiers du cinéma Gallimard Le Seuil, 1980, p.14.
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    8. Régis Debray, LŽOeil naïf, Paris, Le Seuil, 1994, p.7.
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    9. Veja Roland Barthes, Oeuvres complétes, t.III, 1974-1980, Paris, Le Seuil, 1995, p.1235.
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    10. Idem, ibidem, p.1236.
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    11. Rosalind Krauss, Notes on the Index: Seventies Art in America em October, n.3-4, 1977, traduzido do inglês a partir de LŽOriginalité de lŽavant-garde et autres mythes modernistes, Paris, Macula, 1993, p.65-91. A tese indicial alimentou depois um bom número de obras, em particular LŽImage précaire, Du dispositif photographique, de Jean Marie Schaeffer, Paris, Le Seuil, 1987, e LŽActe photographique et autres essais, de Philippe Dubois, Paris, Bruzelles, Nathan Labor, 1990.
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    12. Louis Marin: "A resposta precipitada da história da filosofia 'ocidental', ou apressadamente posta sob esta vulgata, é de fazer o 'ser' da imagem um 'ser' menor, um decalque, uma cópia, uma segunda coisa na posição de uma realidade menor e, assim, em uma tela para as coisas mesmas serem ilusão, um reflexo empobrecido, uma aparência dos seres, um véu enganoso". (Des pouvoirs de lŽimage, Paris, Le Seuil, 1993, p.10).
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    Sobre o autor



    André Gunthert é diretor da Sociedade Francesa de Fotografia,
    editor da revista Études Photographiques,
    ensina história da fotografia na universidade Paris VIII.
    Publicou entre outros, com D. Bernard,
    L'instant rêvé: Albert Londe
    (Jaqueline Chambon, 1993).


























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    Agradecimentos



    FotoPlus agradece ao autor pela cessăo do texto
    para esta edição do boletim Páginas Negras.

    E ao amigo Alfredo Fressia pela revisão das falhas
    na tradução.



























    Página criada por Ricardo Mendes
    20.03.1998 - criação
    20.03.1998 - atualização