| Texto de apresentação: Vicente Ferreira da Silva, o "Sologänger", por Dora Ferreira da Silva. Veja textos disponíveis de Vicente Ferreira da Silva. Para contato, envie um e-mail. Atualizado em: 16.06.97 | ![]() |
Vicente Ferreira da Silva nasceu em janeiro de 1916 e faleceu
tragicamente num desastre de automóvel em julho de 1963.
É de 1948 seu ensaio sobre Novalis onde cita palavras do
poeta-filósofo alemão que serviriam para ele mesmo:
"Quanto mais curto o tempo, mais rico e múltiplo.
O largo tempo debilita, o curto intensifica." Novalis faz
parte do livro Ensaios Filosóficos que escreveu
aos vinte e dois anos de idade consagrando-o como pensador original,
a maior vocação filosófica do Brasil desde
Farias de Brito na opinião de críticos de porte.
No ano seguinte (1949) publica Exegese de Ação
e em 1950 o admirável Dialética das Consciências.
Sua obra se desencadeia polimórfica, numa modulação
rica e singular através de sua breve existência,
culminando com sua Filosofia da Mitologia.
Embora influenciado por Walter Otto, é colhido pela vivência
pessoal e profunda de que toda cultura é um oferecer-se
do divino, o qual desencadeia e fundamenta poeticamente um dado
mundo. Essa hierofania originante poderia ser interpretada aproximativamente
como a função superior da mitologia que desfecha
um campo de fascinação, assinalando a capacidade
genético-transcendental da incidência histórico-cultural
do divino. Com Kerenyi, Vicente acha que os deuses são
Origens-absolutas, determinando todo um mundo de ações,
formas e desempenhos. Deus morre apenas em suas formas e manifestações,
ressuscitando em novas auroras com reiterado vigor, tornando a
vida saborosa em suas diversas configurações e possibilidades.
A essa instância misteriosa e criadora Vicente deu o nome
de "Fascinator", o qual determina um desvelamento mítico-religioso.
Homens e coisas intramundanas são receptores de modalidades
do ser outorgadas pelo universo sagrado. O "Fascinator"
ou, como às vezes diz Vicente a "Fascinatio Divina"
não promana da mente humana. Pelo contrário, invalida
qualquer doutrina individualista ou antropocêntrica da origem
das formas culturais e a falácia de que o homem-só-homem
seria "o descobridor ou o inventor de seu habitat espiritual."
Diz Vicente metaforicamente que as coisas desceram do céu
para a terra, nascendo de uma Fascinatio Divina, e de forma alguma
foram geradas por uma capacidade criadora do ser humano. É
este e todos os demais seres de um dado mundo que são desocultados
e expostos à cintilação da vida. Quanto aos
desempenhos profanos e utilitários, não se originaram
no nível da consciência comum, segundo propósitos
ou programas racionalistas ou técnicos-pragmáticos,
mas fluiram dessa fonte fascinante, dessa Origem instauradora.
Consequentemente, "o poder que se expressa na conduta humana
formadora de cultura consiste na própria presença
em pessoa, dos deuses, demônios e semideuses."
Numa carta a uma amiga brasileira, o filósofo português
Antonio Braz Teixeira, referindo-se à obra de Vicente Ferreira
da Silva diz numa passagem: "... parece-me que apesar de
pensar em constante referência à cultura germânica
(Fichte, Schelling, Novalis, Hölderlin, Rilke, Heidegger)
Vicente é o mais brasileiro dos filósofos brasileiros,
pela divinização da natureza e pelo politeismo/paganismo
do seu pensamento, pelo verdadeiro sentido cósmico que
revela. Propendo a considerar por isso constituir com Guimarães
Rosa, Suassuna e Glauber Rocha, a expressão cultural mais
autêntica do Brasil profundo e das virtualidades e especificidades
da cultura brasileira. Naquilo que o separa de Schelling e de
Heidegger, nomeadamente na valorização do elemento
emotivo-fascinante e na busca de uma fé ou transracionalidade
originária, vejo eu anunciados os caminhos do futuro do
pensamento brasileiro, liberto enfim da imitação
mais ou menos servil das correntes de moda européia ou
americana."
Vicente era um erudito sem os males da erudição.
Sua linguagem filosófica é rica, cheia de momentos
de vigorosa poesia e seu relacionamento com filósofos europeus,
norte-americanos e sul-americanos não impediram a originalidade
de sua mente indagadora no tocante a pessoas e coisas, dele fazendo,
como disse alguém "um filosófo o tempo inteiro:".
O itinerário que sua obra filosófica tão
bem desenha, polimórfica, fervilhante de idéias,
intuições e novos modos de pensar (como se poderá
constatar nos seus fragmentos publicados postumamente) culmina
a nosso ver com os Diálogos Filosóficos e sua Filosofia
da Mitologia, oriunda de uma vivência pessoal e fecunda.
Mais do que um espírito influenciado por Otto, Kerenyi,
Vicente parece ter-se abeberado em fontes interiores, que compartilhou
com os autores citados. Se assim não fosse, como teria
sido escolhido para representar o Brashil na Rowohlts Deutsche
Enzyklopädie, ao lado de Karl Kerényi (Zürich),
Walter F. Otto (Tübingen), Mircea Eliade (Bukarest/Paris),
Enzo Paci (Pavia), desse modo se evidenciando seu reconhecimento
no mais significativo mundo cultural europeu?
Assim é que tivemos que optar por dois de seus ensaios
(O.C. vol.II) por nos parecerem paradigmáticos da vertente
mais original de sua meditação filosófica,
deixando de lado os Diálogos Filosóficos,
que devem ser lidos na íntegra, não se prestando
a uma fragmentação inevitável nas tentativas
de uma exegese forçosamente sintética.
Em A origem Religiosa da Cultura, Vicente começa
criticando o atomismo representacional, que outorgaria às
coisas "uma vida livre e absoluta" no espaço
e no tempo. Diz ele: "... como sabemos, desde o criticismo
kantiano e as investigações do idealismo do século
passado e como é renovadamente afiançado no pensamento
hodierno, o ente, em sua totalidade, consiste sempre no fruto
de uma sesocultação transcendental que o configura
em seu ser próprio. Todo objeto é em suma um objeto
constituído, interpretado, desenhado em sua índole
derradeira. ... O ser desses objetos assim como o dos demais entes
oferecidos ao nosso conhecimento promana de uma dotação
de sentido transcendental (Sinngebung) que instaura seu
tipo de manifestação. ... todas as coisas são
tributárias de uma iluminação projetiva,
não existindo de maneira alguma como realidades espúrias
e irrelativas. ... Uma das representações fundamentais
que encontramos no mundo e que em absoluto não pode ser
conhecida em seu ser - separado ou isolado é a própria
representação humana, a própria autognosia
pessoal. Acontece que esta representação do nosso
mais íntimo ser, a esfera de conotações e
significados subordinados à nossa gnosia pessoal e social,
têm o mesmo destino de todas as outras representações,
a saber, a de ser um campo des-fechado por um projeto desocultante."
Assim, retomando as considerações iniciais desta
breve nota sobre aspectos da obra filosófica de Vicente,
voltamos à idéia, ou melhor, à intuição
do "Fascinator" como instância primordial de timbre
numinoso que dá sabor e sentido ao mundo e ao homem, vedando
a este último interpretar as hierofanias históricas
do divino "a partir de aspirações fixas ou
pretensamente naturais da alma humana." Convém repetir:
a cultura e o personagem cultural são como que "universos
deflagrados por uma fascinação ontológica
primordial."
Mas é em sua meditação sobre Religião,
Salvação e Imortalidade que a nosso ver culmina
o pensamento de Vicente Ferreira da Silva, adentrando-se a uma
visão soteriológica também des-fechada por
uma determinada fascinação divina. "As cenas
eternas do mundo - diz ele - que constituem o universo prototípico
dos deuses surgem, convocando-nos e convidando-nos para as diversas
moradas indestrutíveis". Haveria pois uma salvação
em Dionisos, uma salvação em Apolo, uma salvação
em Afrodite, uma salvação em Cristo, conforme a
ênfase do princípio erótico-anímico-espiritual
ao qual pertencemos. A tônica do princípio urânico-espiritual
que caracteriza o cristianismo, por exemplo, remete-nos ao vórtice
da salvação em Cristo, à transcendência
celeste. Impossível não lembrar neste contexto a
passagem bíblica: "Muitas são as moradas na
Casa do meu Pai", que parece validar esta perspectiva soteriológica
(em termos puramente filosóficos e especulativos) sugerida
por Vicente. Segundo a vertente do nosso Coração
determinada pelo Fascinator, poder-se-ia então pensar em
outros espaços soteriológicos, em outras dimensões
do salvável e salvado no homem. Os deuses - diz
nosso autor - abrem campo a efetuações existenciais
eternizantes, que pertencem ao seu âmbito interno de possibilidades
atualizáveis." E ainda: "São os vórtices
de eternidade que se abrem como teatros de transcendências...
O que efetuamos na linha de uma dada "perfectio", inspirados
por um deus, pertence de direito à uma bemaventurança
eterna suscitada pela sua proximidade. O nosso coração
revela-se então em sua totalidade, como uma chispa do coração
selvagem do divino e nele estamos e permanecemos para sempre."
Vicente conhecia suficientemente a obra de Jung. A linha da "perfectio"
que adotamos (inspirados por um deus ou daimon) revelando-se como
totalidade faz com que nos aproximemos "do coração
selvagem do divino", e, captados por sua cintilação,
nos tornemos chispas ou fagulhas do mesmo fogo. A palavra "perfectio"
aqui toma a conotação de uma completitude, tal como
um ponto que se deslocasse até encontrar-se a si mesmo,
traçando um círculo.
Numa época de profunda crise como a que atravessamos neste
fim de milênio, fala-se do fim do mundo e a indagação
que alguns fazem é de que se trataria antes do fim de um
mundo. A droga e a violência denunciam a perda do sabor
da vida, incitando à busca de sucedâneos, sejam eles
entorpecentes ou práticas religiosas regressivas e inautênticas.
Mas, como diz Vicente, "qualquer autoconhecimento humano
já traz em si o timbre de uma pertinência religiosa."
Não somos os que escolhem, mas somos os escolhidos por
um dado traçado do mundo e pelo "fascinator"
que a ele deu origem e às suas possibilidades. As raízes
religiosas do mundo, de um dado mundo nos ligam a partir dos estratos
mais profundos de nossa alma ao numen ou aos numina que nos guiam
e fascinam.
A busca do autoconhecimento que floresce no campo da psicologia,
particularmente nas escolas que não invalidam a experiência
religiosa, aponta para a ânsia de um encontro ou reencontro
do numinoso, sem o qual o mundo empalidece e a alma se estiola
no "divertissement" que busca em vão saciar a
fome da vida. Esta só emite sua frágil e bela fulguração
quando o mais profundo é tocado pela radiação
divina. Talvez se fale tanto em mortes e Morte porque estamos
perto da fronteira de uma renovação da vida e do
sentido da existência.
A primeira edição em dois pesados e densos volumes
das Obras Completas (ou incompletas?) de Vicente Ferreira
da Silva pelos cuidados do Instituto Brasileiro de Filosofia (IBF)
se acha esgotada. Dada a relevância dessa obra e seu grande
significado nos marcos da cultura brasileira e mesmo universal,
planejei com alguns poucos amigos a reedição dessa
obra sob uma outra forma. O pintor Wesley Duke Lee levou avante
o projeto gráfico das capas, e a opção foi
por um tipo de Livro de Bolso, em quatro volumes, simples mas
de um bom gosto extremo. Cada capa seria de uma cor, com um desenho
da deusa-Mãe geométrica do período neolítico.
Haveria também algumas fotos, enriquecendo cada volume,
e revelando aspectos essenciais da vida de Vicente Ferreira da
Silva.
Traduzido para o francês por Zdenek Kourim numa obra coletiva
publicada em Toulouse pela equipe da CNRS (Meditátion
sur la Mort), publicado na Itália na revista AUT AUT,
sua obra foi discutida em Seminários de Ernesto Grassi
quando este era professor na Universidade de Munich. Após
sua morte apareceu um número especial sobre sua vida e
obra na revista CONVIVIUM, da qual foi fundador com Adolpho Crippa.
No Brasil mereceu várias dissertações de
mestrado e teses de doutorado, sendo que uma dessas teses foi
apresentada na Universidade de Roma. Sua obra ocupou historiadores
da Filosofia no Brasil e no exterior. Em Portugal particularmente
membros do Instituto Luso-Brasileiro de Filosofia vem estudando
sistematicamente sua obra, entre os quais destacamos os trabalhos
de Antonio Braz Teixeira e Paulo Borges.
Esperamos que o Brasil lhe dê o merecido lugar, e a merecida
atenção, e que essa segunda edição
da obra de Vicente Ferreira da Silva não seja escondida
no cenário da cultura filosófica brasileira.
Que o "Sologänger" Vicente Ferreira da Silva (assim
o definiu um professor alemão refugiado no Brasil em 1946)
possa ser o companheiro de outros solitários como ele.
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