{"id":469,"date":"2020-02-24T08:18:59","date_gmt":"2020-02-24T08:18:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.fotoplus.com\/duas\/?p=469"},"modified":"2020-02-24T08:27:02","modified_gmt":"2020-02-24T08:27:02","slug":"versos-inspirados-pela-visao-de-uma-camera-obscura-1747%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.fotoplus.com\/duas\/?p=469","title":{"rendered":"Versos inspirados pela vis\u00e3o de uma c\u00e2mera obscura (1747)\ufeff"},"content":{"rendered":"\n<p> M\u00e1quinas de desenhar constituem um extenso  conjunto de instrumentos, que re\u00fane de pant\u00f3grafos a c\u00e2meras l\u00facidas,  mas s\u00e3o as c\u00e2meras obscuras as mais conhecidas. Presentes at\u00e9 hoje na  forma das c\u00e2meras buraco de agulha (pinhole), na fotografia estenop\u00e9ica,  constituem desde 1839 o modelo de base para o aparato de capta\u00e7\u00e3o de  imagens com a agrega\u00e7\u00e3o de lentes: a c\u00e2mera moderna.<br><br> Seu princ\u00edpio \u00e9 registrado desde a antiguidade cl\u00e1ssica, mas \u00e9 ao final  do s\u00e9culo XVI que ela come\u00e7a a ganhar forma e emprego efetivo. Quase um  s\u00e9culo e meio depois, em 1747 surge em Londres um singelo panfleto de 16  p\u00e1ginas, impresso por John Cuff ([1708]-1[772], importante fabricante e  comerciante de instrumentos \u00f3pticos, intitulado: <em>Verses occasion&#8217;d by the sight of a chamera (sic) obscura<\/em> (Versos inspirados pela vis\u00e3o de uma c\u00e2mera obscura).<br><br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/mcusercontent.com\/55795b3a47ccd19ea35d5b0b6\/images\/abb3e68c-1acf-4438-b7d1-cac8241a0bb1.jpg\" alt=\"\"\/><figcaption><em>Reproduzido em: COKE, Van Deren. &#8220;One hundred years of photographic history&#8221;. Albuquerque: (University of New Mexico Press, 1975.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Embora sem autoria confirmada, o longo poema de 13 p\u00e1ginas atribu\u00eddo a Cuff faz uma elegia ao instrumento. Ao final da edi\u00e7\u00e3o, um an\u00fancio detalhado apresenta a variedade de produtos \u00e0 venda em sua loja, com destaque para os diversos modelos de microsc\u00f3pios, muitos com aperfei\u00e7oamentos ou inven\u00e7\u00f5es por Cuff, como o microsc\u00f3pio aqu\u00e1tico, desenvolvido para observa\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cimes marinhos. A seu modo, o folheto caracteriza um modelo da publicidade comercial do per\u00edodo.<br><br>O frontisp\u00edcio traz refer\u00eancia a poema de Ov\u00eddio (43 a.C-[18] d.C) com o verso inicial de <em>Metamorphoses<\/em>, poema longo escrito em 8 d.C, que tra\u00e7a um panorama da mitologia cl\u00e1ssica: &#8220;In nova fert animus mutatas dicere formas corpora&#8221; (Minha mente est\u00e1 inclinada a falar de corpos transformados em novas formas.). Armado dessa inten\u00e7\u00e3o, e, de certa forma, em estilo, John Cuff elabora longo poema aleg\u00f3rico.<br><br>Heinrich Schwarz (1894-1974), fil\u00f3sofo e historiador da arte, \u00e9 um dos poucos que comentaram esses versos. Schwarz foi um dos pioneiros no estudo da fotografia no campo da hist\u00f3ria da arte na d\u00e9cada de 1920, curador,\u00a0 e autor da primeira monografia em 1931 dedicada a David Octavius Hill (1802-1870). Em 1975, participa postumamente com ensaio <em>An eighteenth-century english poem on the camera obscura, <\/em>no livro editado por Van Deren Coke, em homenagem a Beaumont Newhall: <em>One hundred years of photographic history <\/em>(University of New Mexico Press, p.127-138) (<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/archive.org\/details\/onehundredyearso0000unse_u2x0\" target=\"_blank\">clique para acessar vers\u00e3o online<\/a>).<br><br>Schwarz, algo envergonhado, aponta o poema como texto pobre elaborado por um amador. No entanto, reproduz o poema integralmente, antecedido de um breve panorama sobre o instrumento. O autor comenta o an\u00fancio e a oferta de c\u00e2meras obscuras por Cuff, das quais nenhum modelo remanescente \u00e9 conhecido. Apresentada por Cuff entre seus &#8220;curiosos instrumentos \u00f3pticos&#8221;, em meio a lanternas m\u00e1gicas, bin\u00f3culos para \u00f3pera etc, ela \u00e9 descrita brevemente: &#8220;A C\u00e2mera Obscura para exibi\u00e7\u00e3o de vistas em propor\u00e7\u00f5es e cores naturais, junto como o movimento dos objetos vivos&#8221;.<br><br>Sobre o poema, existe uma vers\u00e3o hom\u00f4nima, editada em 2010 (Galle Ecco, 22p.) com coment\u00e1rios cr\u00edticos. O texto, em sua forma original, \u00e9 um duplo desafio. Primeiro, pela modelo aleg\u00f3rico empregado na elegia, da qual a inspira\u00e7\u00e3o em Ov\u00eddio tem alguma marca, com emprego de invers\u00f5es entre sujeito e predicado, bem com uso peculiar de pontua\u00e7\u00e3o, muitas delas agora eliminadas. Segundo, pelo forma mesma da l\u00edngua inglesa no s\u00e9culo XVIII. Aqui fazemos uma adapta\u00e7\u00e3o livre da primeira estrofe, e, de outra, mais adiante, na p\u00e1gina 7 em que Cuff comenta o desafio \u00e0 pintura.<br><br>&#8220;Versos motivados pela vis\u00e3o de uma c\u00e2mera obscura<br><br>&#8220;Diga, m\u00e1quina extraordin\u00e1ria, quem te ensinou a desenhar?<br>E imitar a natureza com tal habilidade divina?<br>Os milagres de qual [lente] criativa<br>Surpreenderam com espanto as classes supersticiosas,<br>De tolos, nos tempos de (Francis) Bacon, e fizeram-se passar por bruxaria.<br>Produ\u00e7\u00f5es estranhas! A fraca Raz\u00e3o transcenderam;<br>E todos admiraram, mas poucos podiam compreender<br>A causa escondida; o resultado que os homens claramente veem, compelidos pela<br>vis\u00e3o de teus mist\u00e9rios a acreditar.&#8221;<br><br>(&#8230;)<br><br>&#8220;Como esse pintor se vangloriaria da arte do pr\u00f3prio l\u00e1pis?<br>Quem poderia transmitir tais movimentos \u00e0 obra?<br>Mas aqui voc\u00ea n\u00e3o tem rival na tua fama;<br>Apenas voc\u00ea para copiar o conjunto da Natureza,<br>T\u00e3o estritamente verdadeira parece a pr\u00f3pria imagem<br>Em propor\u00e7\u00f5es corretas; cores fortes ou fracas;<br>Pela luz e sombra; sem as camadas da pintura:<br>Para animar a imagem e inspirar,<br>Tais Movimentos, conforme as Figuras podem exigir.<br>Do c\u00e9u, como Prometeu, voc\u00ea rouba o fogo sagrado.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n\n\n\n<p>__________________<br>Como citar: <\/p>\n\n\n\n<p>MENDES, Ricardo. &#8220;Versos inspirados pela vis\u00e3o de uma c\u00e2mera obscura (1747)&#8221;. <em>Fotoplus Boletim, <\/em>n.46, 24 de fevereiro de 2020. dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/fotoplus.com\/duas&#8221;. Acesso em: &#8230; de &#8230; de &#8230;<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1quinas de desenhar constituem um extenso conjunto de instrumentos, que re\u00fane de pant\u00f3grafos a c\u00e2meras l\u00facidas, mas s\u00e3o as c\u00e2meras obscuras as mais conhecidas. 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